Todo mundo sabia, menos quem deveria saber. Todo mundo queria, menos quem deveria querer. Todo mundo sentia, menos quem deveria sentir. E sempre foi assim, eu ainda tinha que agüentar todos os dias, tinha que encará-lo, ouvi-lo... E o pior de tudo: ele sentava na minha frente, a professora sempre o colocava no meu grupo, nós conversávamos, eu dava algumas indiretas, e todo mundo percebia, menos ele. Eu, cansada de sofrer, decidi encará-lo um dia, e assim fiz, cheguei pra ele e perguntei se ele tinha algum problema, ele fez uma cara de quem não estava entendendo nada, e eu fiquei séria, esperando a resposta, e então ele respondeu que não, ele não tinha nenhum problema. Eu insisti e perguntei se ele enxergava, ele sorriu e me chamou de louca, mas mesmo assim respondeu que enxergava, então eu o questionei, e seu coração? Ele enxerga? Ele continuou não entendendo completamente nada, e respondeu que estava procurando essa resposta. Sem respirar, já respondi por ele, disse que não, que o seu coração não enxergava, ele ficou pasmo, virou as costas e foi embora. Eu, furiosa, sabia que não conseguiria retomar o assunto, e então, o puxei pelos braços, e disse que o amava, que ele era idiota, tonto, cego, e psicopata, mas o fato era que esses motivos que me dava mais vontade de amá-lo. E então, ele olhou no fundo dos meus olhos, e me beijou –parecia que eu estava saindo do chão– e depois disse que ele tinha medo, medo de enxergar e sentir que a única razão dele acordar todos os dias de manhã, era eu. Eu era a única razão dele, pra tudo.
Giovanna Tomeo.
Giovanna Tomeo.
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